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domingo, 22 de abril de 2012

ANTOLOGIA DE POEMAS CLÁSSICOS 2

Neste texto coloco mais poemas EXCEPCIONAIS, CLÁSSICOS, de grandes vultos da poética mundial em todos os tempos...

















Cântico I

Não queiras ter Pátria.
Não dividas a terra.
Não dividas o céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto.
Que as coisas todas são tuas.
Que alcançará todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Te ponhas em tudo,
Como Deus.

Cecília Meirelles



      Canção


      O peso do mundo
      é o amor.
      Sob o fardo
      da solidão,
      sob o fardo
      da insatisfação

      o peso
      o peso que carregamos
      é o amor.

      Quem poderia negá-lo?
      Em sonhos
      nos toca
      o corpo,
      em pensamentos
      constrói
      um milagre,
      na imaginação
      aflige-se
      até tornar-se
      humano -

      sai para fora do coração
      ardendo de pureza -

      pois o fardo da vida
      é o amor,

      mas nós carregamos o peso
      cansados
      e assim temos que descansar
      nos braços do amor
      finalmente
      temos que descansar nos braços
      do amor.

      Nenhum descanso
      sem amor,
      nenhum sono
      sem sonhos
      de amor -
      quer esteja eu louco ou frio,
      obcecado por anjos
      ou por máquinas,
      o último desejo
      é o amor
      - não pode ser amargo
      não pode ser negado
      não pode ser contigo
      quando negado:

      o peso é demasiado
      - deve dar-se
      sem nada de volta
      assim como o pensamento
      é dado
      na solidão
      em toda a excelência
      do seu excesso.

      Os corpos quentes
      brilham juntos
      na escuridão,
      a mão se move
      para o centro
      da carne,
      a pele treme
      na felicidade
      e a alma sobe
      feliz até o olho -

      sim, sim,
      é isso que
      eu queria,
      eu sempre quis,
      eu sempre quis
      voltar
      ao corpo
      em que nasci.

Allen Ginsberg


ai de mim copacabana

um dia depois do outro
numa casa abandonada
numa avenida
pelas três da madrugada
num barco sem vela aberta
nesse mar
nem mar sem rumo certo
longe de ti
ou bem perto
é indiferente, meu bem

um dia depois do outro
ao teu lado ou sem ninguém
no mês que vem
neste país que me engana
ai de mim, copacabana
ai de mim: quero
voar no concorde
tomar o vento de assalto
numa viagem num salto
(você olha nos meus olhos
e não vê nada -
é assim mesmo
que eu quero ser olhado).

um dia depois do outro
talves no ano passado
é indiferente
minha vida tua vida
meu sonho desesperado
nossos filhos nosso fusca
nossa butique na augusta
o ford galaxie, o medo
de não ter um ford galaxie
o táxi, o bonde a rua
meu amor, é indiferente

minha mãe, teu pai a lua
nesse país que me engana
ai de mim, copacabana
ai de mim, copacabana
ai de mim, copacabana
ai de mim.

Torquato Neto


      DELÍRIOS
      II
    ALQUIMIA DO VERBO
      Para mim. A história das minhas loucu-
      ras.
      Há muito me gabava de possuir todas
      as paisagens possíveis, e julgava irrisórias
      as celebridades da pintura e da poesia mo-
      derna.
      Gostava das pinturas idiotas, em por-
      tas, decorações, telas circenses, placas,
      iluminuras populares; a literatura fora de
      moda, o latim da igreja, livros eróticos sem
      ortografia, romances de nossos antepassa-
      dos, contos de fadas, pequenos livros in-
      fantis, velhas óperas, estribilhos ingênuos,
      rítmos ingênuos.
      Sonhava com as cruzadas, viagens de
      descobertas de que não existem relatos, re-
      públicas sem histórias, guerras de religião
      esmagadas, revoluções de costumes, des-
      locamentos de raças e continentes: acredi-
      tava em todas as magias.
      Inventava a cor das vogais! - A negro
      E branco, I vermelho, O azul, U ver-
      de. Regulava a forma e o movimento de
      cada consoante, e , com ritmos institivos,
      me vangloriava de ter inventado um verbo
      poético acessível, um dia ou outro, a todos
      os sentidos. Era comigo traduzí-los.
      Foi primeiro um experimento. Escre-
      via silêncios, noites, anotava o inexprimível.
      Fixava vertigens.
Arthur Rimbaud



      POEMA DE SETE FACES

    Quando nasci, um anjo torto
    desses que vivem na sombra
    disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

    As casas espiam os homens
    que correm atrás de mulheres.
    A tarde talvez fosse azul,
    não houvesse tantos desejos.

    O bonde passa cheio de pernas:
    pernas brancas pretas amarelas.
    Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
    Porém meus olhos
    não perguntam nada.

    O homem atrás do bigode
    é sério, simples e forte.
    Quase não conversa.
    Tem poucos, raros amigos
    o homem atrás dos óculos e do bigode.

    Meu Deus, por que me abandonaste
    se sabias que eu não era Deus,
    se sabias que eu era fraco.

    Mundo mundo vasto mundo
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.
    Mundo mundo vasto mundo,
    mais vasto é meu coração.

    Eu não devia te dizer
    mas essa lua
    mas esse conhaque
    botam a gente comovido como o diabo. 
Carlos Drummond de Andrade


         EU...
    Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
    Sou a crucificada... a dolorida...

    Sombra de névoa tênue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!...

    Sou aquela que passa e ninguém vê...
    Sou a que chamam triste sem o ser...
    Sou a que chora sem saber por quê...

    Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
    Alguém que veio ao mundo pra me ver,
    E que nunca na vida me encontrou! 
Florbela Espanca


    O NÚMERO QUATRO

    O número quatro feito coisa
    ou a coisa pelo quatro quadrada,
    seja espaço, quadrúpede, mesa,
    está racional em suas patas;
    está plantada, à margem e acima
    de tudo o que tentar abalá-la,
    imóvel ao vento, terremotos,
    no mar maré ou no mar ressaca.
    Só o tempo que ama o ímpar instável
    pode contra essa coisa ao passá-la:
    mas a roda, criatura do tempo,
    é uma coisa em quatro, desgastada.
João Cabral de Melo Neto




A GRAVATA
    A A G T A V DO LO ROSA QUE USAS E QUE TE ENFEITA Ó CIVILI ZADO TI QUERES RA RESPIRAR SE DIREITO
Guilhaume Apollinaire 



1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha
2.
o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

3.
no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas
(flutuantes)
do câmbio:

enquanto o não
- neoliberado
come pão
com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-
mansão em miami
4.
o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-
tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números
5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:

um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.
6.
(a
contramundo
o mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis

de povo-ônus
que não tem lugar marcado

no campo do possível
da economia de mercado

(onde mercúrio serve ao deus mamonas)
7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)

Haroldo de Campos


Para fazer uma campina
basta um só trevo e uma abelha.
Trevo, abelha e fantasia.
Ou apenas fantasia
Faltando a abelha.

Emily Dickinson


    A ROSA DE HIROSHIMA


    Pensem nas crianças
    Mudas telepáticas
    Pensem nas meninas
    Cegas inexatas
    Pensem nas mulheres
    Rotas alteradas
    Pensem nas feridas
    Como rosas cálidas
    Mas oh não se esqueçam
    Da rosa da rosa
    Da rosa de Hiroshima
    A rosa hereditária
    A rosa radioativa
    Estúpida e inválida
    A rosa com cirrose
    A anti-rosa atômica
    Sem cor sem perfume
    Sem rosa sem nada. 

Vinícius de Moraes


      Papoulas de Julho
    Ó papoulinhas, pequenas flamas do inferno,
    Então não fazem mal?
    Vocês vibram. É impossível tocá-las.
    Eu ponho as mãos entre as flamas. Nada me queima.

    E me fatiga ficar a olhá-las
    Assim vibrantes, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.

    Uma boca sangrando.
    Pequenas franjas sangrentas!

    Há vapores que não posso tocar.
    Onde estão os narcóticos, as repugnantes cápsulas?

    Se eu pudesse sangrar, ou dormir!
    Se minha boca pudesse unir-se a tal ferida!

    Ou que seus licores filtrem-se em mim, nessa cápsula de vidro,
    Entorpecendo e apaziguando.
    Mas sem cor. Sem cor alguma.
Sylvia Plath


TODA MULHER


a coisa que mais o preocupava
naquele momento
era estudo de mulher

toda mulher
dos quinze aos dezoito.

Não sou mais mulher.
Ela quer o sujeito.
Coleciona histórias de amor. 


Ana Cristina Cesar 




E é isto; espero que tenham gostado...








OM TAT SAT


Vídeo interessante...Poesia gótica...



Fonte Youtube


Abraços

Pax e Lux


VALTER TALIESIN

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