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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

UM NATAL MUITO ESPECIAL





Fonte: Google imagens




Existem lembranças, momentos que são inesquecíveis, especiais em nossas vidas.


Momentos que nos marcam profundamente, a ferro e fogo e que são participantes ativos nas pessoas que fomos e que seremos...


Este que passo a relatar é um deste momentos...


Aconteceu em um noite de véspera de Natal...


Há 23 anos atrás...


Eu naquele tempo fazia parte de uma Igreja, de uma das inúmeras denominações cristãs que existem neste mundo...


Não uma das novas e recentes Igrejas mas uma das antigas, respeitadas e conceituadas.


Estas Igrejas mais tradicionais são especialistas em festas de natal muito legais e meu relato a seguir e sobre um destes.


Tínhamos ensaiado metade do ano para fazermos as apresentações de natal.


Estávamos preocupados porque o líder máximo daquela Igreja estaria em nossa festa , ele nunca tinha vindo até aquela Igreja então estávamos preocupados em apresentarmos o melhor trabalho possível.


Nós seres humanos nos preocupamos demais com estas coisas ou seja; agradarmos nossos líderes , superiores etc....e em uma organização religiosa isto não é diferente.


Era uma noite gostosa, quente , como devem ser as noites de natal no cone sul mas não um calor sufocante, havia frescor e brisa no ar.


Naquele dia como em todos os dias de natal as pessoas colocaram roupas novas, quem não as tinha colocou suas melhores roupas e todos chegaram cedo para as apresentações que tomariam conta da noite.


O altar foi retirado e toda a frente do templo se transformou num enorme palco.


O templo esta lotado, tomado, muita gente queria conhecer o líder então não se fizeram de rogados e vieram de longe.


Também pessoas curiosas da vizinhança que gostam de tais festas(pois geralmente após elas tem-se comes e bebes e distribuição de presentes) estavam ali presentes, logo em frente sentaram-se os reverendos e suas famílias, e nos bancos subsequentes as hierarquias inferiores...para onde se olhava um mar de gente, de cabeças, a brisa fresca da noite já não ajudava amainar o calor sufocante que fazia ali dentro com tantas pessoas ocupando um mesmo lugar.


Abri a cortina e olhei e vi aquelas pessoas e tive uma epifania...


SIM!


Naquele instante foi como se o tempo parasse...


Eu olhava aqueles rostos, aquelas feições, lembro que desejei demais comunicar algo, alguma coisa especial naquela noite...


Não agradar a ou b mas ....fazer a diferença de alguma forma na vida das pessoas.


Começaram as apresentações; números especiais de cânticos, seguido de poesias declamadas, e depois vieram as peças de natal....verdadeiro teatro amador encenado ...


Nossa peça era a última a ser apresentada, a diretora de cena botava muita fé nela e por isto escolheu a dedo as pessoas que iriam encená-la e também o momento da encenação. O problema e que existia um porém; com o passar do tempo as pessoas estavam cansadas, com fome, pensando nos comes e bebes que viriam depois e bem desfocados já das apresentações.


Era assim uma faca de dois gumes ficar para o final.


E então chegou a hora...


Era uma história que se passava no nordeste brasileiro...


Um natal vivido numa pequena aldeia nordestina e no meio de uma pobre família.


Eu fazia o pai desta família do alto da autoridade dos meus 25 aninhos rs....Entrei em cena de chinelo no pé, calça rancheira, enxada na mão representando aquele homem bronco que pouco a pouco seria transformado pela luz do natal...


Só que antes do drama havia muito humor no texto e na medida em que a peça transcorria vimos uma platéia em franca desorganização, já muitos saindo para fora, voltando a prestar  atenção e na medida em que as risadas se sucediam no ambiente quem estava indo voltou curioso, e quando demos conta o local estava ainda mais cheio já que outros curiosos que até então não tinham mostrado interesse também vieram.


Eu percebia que conforme encenávamos uma espécie de energia interativa parecia fluir de cada ator para a platéia e vice e versa, sinceramente parecia algo palpável, vivo, em torno de nós.


As pessoas inclusive o líder se esborrachavam de rir e eu sentia como que uma eletricidade tomar conta de mim. Nos momentos decisivos de cada fala... cada  gesto, cada olhar era encenado com total domínio e magia, algo inexplicável para quem não teve uma tal tipo de experiência.


Chegou o momento síntese de toda a noite....era uma cena em que agradecido pelo Milagre de Natal(era este o nome da peça) o pai de família deveria orar ao Pai Universal.


Eu tinha ensaiado esta cena diversas vezes...


Sempre tinha me saído bem...


As palavras saiam bonitas, claras, audíveis, bem faladas...


Mas nada me preparou para o que estava por vir...


No momento culminante senti uma força, uma energia me impelir ao chão e  caindo de joelhos abri meus lábios e minha voz saiu clara, poderosa , mas com uma entonação tão especial, tão sagrada como nunca tinha sentido antes....Lágrimas verteram de meus olhos de verdade, e cada frase ganhou um significado vivo, verdadeiro, era como se eu estivesse encarnando naquele momento cada pai de família sofredor deste mundo, que trabalha de sol a sol para dar sustento aos seus filhos, que não sabe de onde tirar para agradar-lhes e que quando se vê sem condições de atendê-los sofre calado dentro de si a dor desta impossibilidade.


Eu verdadeiramente me tornei naquele pai nordestino que interpretava e que na verdade é universal pois infelizmente a dor neste mundo também o é... e na medida em que as palavras da oração fluíam eu vi algo poderoso acontecendo em todo o templo...as pessoas que até então se refastelavam com os momentos de humor foram tomados de tal forma pela energia daquela oração que choravam, soluçavam em altos brados.


Eu me vi numa posição singular; no mesmo instante objeto e observador, no mesmo instante protagonista e assistente, um Valter atuava, e qual um sacerdote levava aquelas pessoas a um êxtase sacramental, sobrenatural de amor ao próximo e um outro observava tudo aquilo, observava a mim e a eles, via o líder aos prantos, sua esposa, todas as pessoas da Igreja do mais rico ao mais pobre, pessoas que nem eram da Igreja inclusive, chorando e orando juntas com o Valter que encenava.


E já não era mais uma encenação, era algo distinto, algo vivo, real, palpável, inenarrável, palavras não conseguem descrever a contento o que se passou.


Hoje 23 anos depois tento traduzir aqui o que se passou naquele dia pela primeira vez mas encontro tremenda dificuldade.


Só sei que quando levantei e por muitos minutos depois as pessoas continuaram naquele êxtase sagrado.


Quando encerrou-se a peça as pessoas vinham me cumprimentar com lágrimas nos olhos, não falavam nada mas seus olhares transmitiam toda a verdade do que havia se processado e seus interiores.


Fui cumprimentado pelo líder e sua esposa e depois de um forte abraço percebi o quanto ele tinha sido tocado.


Mas naquele instante isto era irrelevante para mim pois o melhor de tudo era saber que havia conseguido atingir aquilo que todo ator anseia, que é a alma e o cerne do teatro que é ser uma verdadeira máscara dor real, que é fazer com que o assistente seja DE FATO transportado para dentro da história que esta sendo contada.


E mais ainda, que é transmutar as energias e fazer com que as pessoas repensem suas vidas e mudem para melhor.


Eu representei várias peças antes daquele dia e depois também e todas com sucesso graças a Deus mas NADA se comparou àquele dia.


Tanto é verdade que depois disto me recusei veementemente reencenar aquela peça de novo por mais que me pedissem pois eu sabia que o que tínhamos vivenciado naquele dia era algo único, com sabor único e deveria ser mantido como tal....para sempre...


Esta é minha experiência única de natal que quis repartir com vocês amigos e amigas...


Espero que tenham gostado...


Termino desejando a todos um Feliz Natal...que o significado deste dia se faça real dentro de cada um de nós...SEMPRE!



    Fonte: Google imagens 



Vídeo...uma peça de Natal de uma Igreja cristã(Luterana) para exemplificarmos uma tradição que jamais deve morrer no meio cristão...
Fonte: Youtube




Abraços


Pax e Lux


VALTER TALIESIN









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